Em nova entrevista divulgada pela revista LGBT francesa TÊTU, AURORA fala sobre inspiração, carinho com os fãs, direitos LGBT e muito mais. Confira:


TÊTU conheceu Aurora, a jovem prodígio norueguesa, pouco antes de seu show em Paris. Um momento mágico e intemporal…

 

Olá, Aurora. Você pode se apresentar para nossos leitores franceses?

Olá, leitores franceses. Meu nome é Aurora. Eu venho de uma aldeia perto de Bergen, na Noruega. Eu vivo ao longo de um fiorde, na margem do rio e é muito bom.

Onde você encontra todas suas inspirações?

Meu piano está além da minha janela. No lado de fora, há o oceano, muitas árvores, uma enorme ilha. É lindo. Parece que é as Crônicas de Nárnia, eu não sei se você já viu (risos).

Sim, é claro! Com Tilda Swinton, amo!

Eu acho que essas paisagens inspiram-me. Eu escrevo muito para o mar e a natureza. Mais uma vez, o meu piano está além da minha janela. Chamo a minha inspiração. Mas tudo é inspirador: pessoas, mãos, árvores, animais, cheiros…

É verdade, a memória olfativa é particularmente potente.

Sim! É absolutamente inexplicável. Mas, além dos cheiros, acho que tudo pode ser inalado a partir do momento, é interessante.

Você escreve suas músicas sozinha ou com ajuda de outras pessoas?

Eu prefiro escrever sozinha, apesar que às vezes eu preciso de outras pessoas. Porque eu tendo a escrever canções muito tristes, escuras e bastante lentas. Eu acho que é importante ter alguma variação para que as pessoas não acabem deprimidas (risos). “Conqueror”, por exemplo, eu mesma escrevi os versos, e em seguida, o refrão com os membros da banda.

Meu empresário estava no quarto, mas eu não sei se ele realmente participou. Mas ficaria feliz em dizer que sim (risos).

Às vezes eu escrevo com pessoas, mas eu faço isso quase sempre sozinha. É bom fazer um pouquinho dos dois, porque eu tenho que entender o que eu canto, eu sinto isso. É importante para mim que as palavras venham do fundo do coração.

Há muitos monstros e criaturas que habitam na sua música. De onde é que eles vêm?

Eu não sei realmente. Não é preciso muito para me fazer feliz, mas não é preciso muito para me fazer triste também. Tristeza permeia o meu corpo mais que a alegria. Se algo triste acontece, eu vou ficar triste por muito tempo, mesmo que seja algo insignificante, tipo tombar um sorvete no chão (risos).

Para responder à sua pergunta, mais especificamente, eu acho que sou um pouco atraída por coisas mórbidas, assustadoras e repugnantes. Sou fascinada pelo fato de que os seres humanos podem ser tão bonitos e ao mesmo tempo tão horríveis. É tão estranho pensar que o ser humano é um ser mais selvagem do que um animal. Esta capacidade de amar e odiar. Eu tenho uma música chamada “Murder Song” e não é difícil perceber que ela não é realmente feliz. Então eu acho que esses monstros vêm de nós mesmos, eles são encontrados dentro de nós.

Será que eles vêm de seus próprios pesadelos?

Sim, às vezes!

Você sonha muito?

Oh sim! Eu sonho muito. É muito cansativo porque quando eu acordo de manhã não sinto ter dormido. Mas eu acho que é bom para sonhar.

Você ainda é jovem, como você vê a evolução da sua música?

Eu tenderia para uma combinação perfeita de anjos e monstros. Eu amo música bonita. Sabe Enya?

Sim! É realmente muito bonito, flutua na sua cabeça…

Absolutamente! Eles se parecem com anjos. É lindo. Eu amo a música clássica, isso me acalma e me ajuda a dormir relaxada. Por outro lado, eu também amo heavy metal como o Gojira ou Mastodon. As letras podem ser um pouco assustadoras às vezes. Mas, é importante para mim que a música não seja apenas triste. Ela deve ser feliz e triste ao mesmo tempo, gosto de como as pessoas ficam um pouco confusas. Isso é mais difícil, porque faz você querer ouvir a música, porque você não entende como você se sente.

Eu acho que isso é o que faz a intensidade da sua música, realmente!

Oooooh muito obrigada!

Você transporta as pessoas figurativamente, mas também literalmente: o seu show só começa daqui a duas horas e já está cheio de fãs na fila do lado de fora (risos). Viu quando chegou?

Sim, eu conheci oito porque cheguei há pouco tempo. Um deles nos deu crepes com Nutella. Fiz amizade com dois dos meus fãs franceses. Um deles é chamada Maeva e ela sempre nos dá panquecas quando ela vem para meus concertos em Paris (risos).

O que você diz aos seus fãs quando vocês se encontram? Qual é o retorno para sua música, que é tão poderoso e vive incrivelmente em você?

Bem, eu acho que o efeito produzido pela minha música no outro, especialmente durante os meus shows, é um pouco da diferença que existe entre um bom e um mau dançarino. Com um dançarino ruim, nenhuma emoção, é quase exaustivo. Onde que, com um bom dançarino, é tão bonito, quando nós sentimos as coisas juntos. Isso é tipo como eu imagino o relato do meu público com a minha música. Isso é certamente o que eu quero transmitir-lhes. Eu quero dar tudo o que tenho para o meu público porque, para alguns, é a primeira vez e outros podem ser a última.

Eu trabalho para a primeira revista LGBT francesa, TÊTU.

Sim, isso significa “teimoso” em Inglês, não é?

(Risos) Exatamente. Eu ia te dizer, eu gosto de explicar para artistas estrangeiros que significa “TEIMOSO” porque eu acho que é um nome bonito para uma revista LGBT, ela resume a sensação de que pode guiar-nos na luta diária por nossos direitos.

Sim, eu também acho que é um bom nome.

Este é uma das primeiras revistas LGBT na França, pelo menos com tanta visibilidade. TÊTU lutou em favor do casamento para todos e muitas outras coisas.

É ótimo. Você vai me fazer chorar, é tão bonito o que você está me dizendo (olhos da AURORA com uma carga de lágrimas, mas conseguiu contê-los).

Você está se aproximando as histórias e questões LGBT na sua música? Como você está falando em suas músicas?

Escrevi muitas canções sobre isso, porque para mim, é impossível entender, como as pessoas não podem achar o amor lindo em todas as suas formas? Não faz sentido. O amor é algo tão puro e bonito, isto é o que nos aproxima do divino. O amor é como uma flor bonita que alguns atropelam. Mas, para mim, continua sendo um tema muito inspirador: a história do direito de amar quem quisermos. Esta é uma das piores coisas que os seres humanos têm feito para outros seres humanos, proibir de amar quem eles querem. Estou tão feliz de ver que hoje as pessoas fazem isto ser comum, mesmo que ainda há um monte de ódio.

Pessoas do mesmo sexo podem se casar há muito tempo na Noruega, não é?

Sim, há muitos anos. Recentemente, alguns padres até aceitam fazer o casamento de pessoas do mesmo sexo. De qualquer forma, eu não me casaria na Igreja enquanto não fosse permitido para todos.

Vocês que estão trabalhando nesta revista e todos os outros que estão lutando a cada dia, eu acho que é ótimo.

Muito obrigado e obrigado por concordar em nos conhecer antes do seu show em Paris.

Fiquei emocionada. As entrevistas são importantes, mas às vezes é um pouco cansativa e repetitiva (risos). Mas quando eu vi em meu diário que eu iria ser entrevistada por uma revista LGBT eu estava muito feliz. Esta é a primeira vez.

Entrevista original (em francês) aqui.

Tradução: Victoria Duarte – Equipe PABR

Fotos por: Mathilde Ka