Em uma entrevista divulgada pela revista norueguesa =Oslo, AURORA fala sobre a pressão da indústria da música, magia, amor, intoxicação e morte. Confira:


Nós conhecemos a nova estrela Aurora Aksnes (20). Ela está vestindo meias 6/8 com super herois nela, uma jaqueta estampada, uma saia verde longa e calças listradas. Ela está em Oslo por alguns dias para aparecer no popular Øya Festival. Entre dias agitados com um monte de viagens e várias entrevistas ela ainda encontrou tempo para encontrar a =Oslo para uma conversa.

Eu noto seus olhos. Parece que pedrinhas de gelo congelaram dentro dele. Azul gelo com detalhes brancos. Ela olha para mim diretamente, um jovem e curioso olhar.

Como você lida com toda a atenção?

Eu não acho que sou muito boa com isso. Eu devo ser a pior celebridade da Noruega. Sabe quando você está andando pela rua com fones de ouvido ouvindo música, de bom humor. Então eu noto que as pessoas olham para mim. “Que estranho”, eu penso. Algumas delas querem tirar fotos, e algumas estão provavelmente mais interessadas nas fotos do que em mim. Eu entendo isso muito bem. É assim como as pessoas são: fascinadas com coisas que são um pouco maior que o normal. Mas as pessoas são sempre legais. Eu acho que eu entendo como é ser um animal em um zoológico (Aurora ri).

“Warriors and weirdos” são como a Aurora chama seus fãs. E eles vêm crescendo em número, em vários países. Em apenas dois anos sua carreira apenas explodiu. Tudo começou com algumas músicas colocadas no Urørt, um site que deixa novos artistas exibir suas músicas de graça. Então teve um concerto no Bylarm Festival em 2014. E daí ela começava. Ela assinou com a gravadora Petroleum na Noruega, Decca na Europa e Glassnote nos EUA. Agora ela está em tour desde o segundo dia de janeiro.

Aurora parece como uma figura tirada de um conto de fadas. A pele clara, o cabelo prata curto e o jeito que ela move suas mãos. Seu estilo peculiar nórdico foi pego pela indústria da música e seus fãs.

Como se sente em se apresentar no Øya Festival este ano?

Eu lembro tão bem da primeira vez no Øya, dois anos atrás. Foi o nono concerto da minha vida. Eu estava tão nervosa que quase desmaiei. Já esteve em algum lugar que estivesse queimando? E então você sente medo e pânico intensos. Mas você descobre o que você tem que fazer. Você procura pela saída mais próxima, água ou alguma coisa para cobrir o fogo. É a mesma coisa no palco, você sabe o que precisa fazer, e então você faz. Meu cérebro grita: “Não, não, não” enquanto eu entro no palco, mas as pernas continuam se movendo. Então eu começo a cantar. Frequentemente eu não me lembro do show depois. Eu sou tão nova. Eu ainda sinto que sou. É assustador e confortante ao mesmo tempo sentir o quão segura eu fiquei no palco. Hoje eu me sinto mais segura, menos nervosa. Eu sempre sou antes de entrar (no palco), mas eu acho que é para o bem. É importante lembrar-me de que todas as apresentações são igualmente importantes.

A leve, calma voz da Aurora é cheia do dialeto de Bergen. Ela toma um pequeno gole de água e me diz o quão dependente disso ela é, mais duas coisas que ela sempre mantém em sua bolsa; limão e gengibre. Aurora cresceu em Os, fora de Bergen. Antes de começar a ser conhecida como uma artista ela mal esteve fora da Noruega. Agora ela esteve em tour pelos EUA e Europa. Eu dou uma olhada na sua agenda de shows. Está abarrotada de cheia e tem muitas milhas. Hungria, Alemanha, Holanda, França, Irlanda, Polônia e Bélgica são apenas alguns dos lugares que ela ira neste outono.

Como está indo a vida em hotéis?

Eu estou melhor nisso agora do que eu costumava ser. Tem algo legal em hotéis, indo a um lugar que você não precisa cuidar ou ver de novo. Hoje eu estive no meu quarto. Tomando chá e fazendo um pouco de yoga. Eu li meu livro, um livro emocionante de fantasia. Eu sempre levo alguns livros, porque eu tenho medo de acabar um e não ter outros. Livros são sagrados para mim. E também eles cheiram tão bem. Eu geralmente acendo uns incensos no meu quarto. E ponho todas as minhas roupas nas prateleiras. Desse jeito, parece mais pessoal.

Aurora olha para a mesa, parando para pensar.

Eu não tenho ficado em casa muito esses dias. Eu passo quase toda hora acordada em música. É um monte de duro porém emocionante trabalho. Às vezes eu fico muito cansada e penso: “Por que eu faço isso?”.

Quando você deita em sua cama de noite no escuro. Sobre o que você pensa?

Uau. Um monte! Às vezes eu penso sobre pequenas partículas. Sabe, em todas as coisas existem bactérias bem pequenininhas que parecem com insetos pequenos. Toda vez que nós encostamos nossas mãos nessas coisas, nós as destruímos.

Ela bate de leve na mesa de madeira maciça que estamos nos sentando sobre. Ela olha para mim e diz ansiosamente.

Tipo agora, agora alguma coisa está acontecendo dentro dessa mesa. Coisas que eu penso sobre bastante. Quando eu deito na minha cama eu me encontro pensando muito sobre quantas bacteriazinhas eu estou me deitando. É fascinante. E então eu geralmente penso sobre a morte. Eu sou fascinada pela morte. Eu estive em muitos funerais, então provavelmente tem a ver com isso. Existe morte em todo lugar no mundo, especialmente agora. É inevitável não pensar nisso, eu sinto. A morte é a única coisa certa na vida. É tão natural, há algo de bom sobre a morte.  Mas assustadora. Eu começo a pensar em como é bom as pessoas ousam em amar umas as outras. Mesmo se soubermos que vamos passar pela dor de perder alguém que amamos.

Você tem medo de morrer?

Às vezes. Mas às vezes não. Eu posso ficar assustada pela morte ser apenas um vasto estado de inconsciência onde você não é nada. Mas ao mesmo tempo eu acho que eu acho que eu era apenas um feto dentro de um útero. No final deste período eu me tornei uma pessoa. No final do meu período como uma pessoa o que vai acontecer? O que eu me torno? Eu preferiria morrer a presenciar alguém da minha família morrendo.

Ela desistiu do ensino médio para focar na sua música. Ela me conta que sempre sentiu diferente, que é um alívio enorme não ter um drama de amigos ou drama de meninos na sua vida agora. Aurora diz que não se arrepende de focar na sua carreira ao invés de estudar. Ela nota que ela e seus amigos vivem vidas muito diferentes. Eles tentam se encontrar o mais frequente o possível, quando a Aurora está em casa em Bergen.

Você é jovem, bonita… Você tem olhos em alguém?

Hmm, eu tenho?

Ela sorri descaradamente e olha para o ar. Seus olhos se encontram com os meus antes de dizer:

Facilmente eu me apaixono com pessoas, e eu sou facilmente fascinada por várias pessoas. Eu gosto de pessoas e eu acho que estou um pouco apaixonada com tudo. Não tem nada que eu queira menos que um relacionamento. Eu sei que eu seria uma namorada ruim. Eu geralmente esqueço aniversários e eventos especiais. Eu esqueceria de ligar e de mandar mensagens toda noite. Eu apenas não sou boa nessa coisa de namorado/namorada. Nessas coisas pequenas que significam muito numa relação. De fato, eu estou solteira por um bom tempo. Eu já estive em dois relacionamentos. Ou não, um e meio, na verdade (ela diz e sorri).

Como foi seu primeiro beijo?

Eu não realmente lembro se foi com um menino ou uma menina. Ah sim, foi meu vizinho. Eu tinha quatro anos, ele dois. Eu era meio que um “pitelzinho” quando mais nova. Eu coloquei um vestido, um velho do sótão, com franjas. Eu desci, levando o vestido com a sujeira junto, estragando e arruinando ele. Eu fui ao vizinho e pedi ele para por sua fantasia de Homem Aranha, e perguntei se ele queria se casar comigo. Tecnicamente, nós ainda somos casados; a gente nunca se divorciou. Eu acho que foi quando dei meu primeiro beijo. A gente realmente devia se divorciar logo; nós nos distanciamos (Aurora ri alto).

A pressão da indústria da música é uma coisa que a Aurora está familiarizada. Ela sente que a música ainda é muito importante, mas também há um foco enorme na boa aparência.

A mídia hoje é louca. As pessoas são editadas em partes. Inspiramo-nos em ídolos que dizem “Amem-se a si mesmos”, quando eles mesmos são magros, altos e bronzeados. Tem muita superficialidade neste meio. Digo, nada é mais bonito que um ser humano natural. Você pode imaginar como fazemos as coisas difíceis para nós mesmos com tudo isso?

Você tem autoconfiança?

Sim. Ou não. Bom. Em situações que realmente exigem que você seja confiante e corajosa, então eu sou. Como me apresentar, entrevistas e coisas assim. Eu me saio bem. Mas ir para festas é meu pior pesadelo. Na indústria da música tem muitas festas que nós devemos nos misturar, e eu não sou boa nisso. Socialmente eu não sou muito confiante. Mas eu sou em umas coisas e outras não. Eu acho que todos nós somos assim. Alguns dias nós somos mais fortes que nos outros. Eu fico feliz que eu tenha conseguido ficar calma durante todo esse processo, Aurora diz firmemente.

Em março seu álbum de estreia “All My Demons Greeting Me as a Friend” foi lançado. Em um pouco mais de um ano nós provavelmente vamos ter um segundo álbum da Aurora. Muitos esperam por isso, incluindo ela mesma. Ela odeia ter que esperar muito. Ela preferiria lançar seu próximo álbum o mais rápido o possível.

Você vai mudar sua expressão musical no seu próximo álbum?

Definitivamente! Eu já mudei bastante. O primeiro álbum foi finalizado um ano antes do lançamento. Tem algumas coisas nele que eu não estou muito feliz. Eu ressentia isso. As razões por isso foram tempo, dinheiro e que eu não podia decidir tudo eu mesma. Eu entendo que todas as pessoas talentosas em minha volta querem ter certeza que minha música vai agradar o maior número de pessoas possível, para que não se torne muito excêntrico.  Mas isso é basicamente o contrário do que eu quero. Eu percebo que é para o melhor se eu quiser uma carreira longa e bem sucedida. Também tem um monte de coisa que eu amo sobre o primeiro álbum. Eu chorei de alegria quando saiu. Antes disso eu estive um pouco triste. Eu me dei conta que eu não podia ser tão dura comigo mesma, mas sim estar orgulhosa de ter a oportunidade de lançar um álbum. Eu vou usar mais tempo no próximo, e eu vou me ouvir mais e aqueles com que trabalho. O plano é que ele seja lançado no mês 11, ou seja, em novembro de 2017. 11 é meu número favorito. Eu sou obcecada por números.

O que faz números tão interessantes?

Bom, eu apenas amo o número onze. É mágico. Eu fico feliz se é 11:11, ou se eu acabei de falar com alguém por onze minutos e onze segundos. Onze é o mesmo de cabeça para baixo e ao contrário. Eu gosto de números e matemática em geral. Na escola eu era muito boa em matemática, física e química. Meu plano era seguir carreira como física antes de pular pra carreira na música.

De onde você tira ideias para suas músicas?

Oh, pode ser qualquer coisa. Tipo quando você cheira algo, e te lembra da sua infância, alguma coisa que nós não gostamos ou alguém que amamos. É o mesmo com o mundo. Quando eu só cheiro ou vejo algo, como uma cor. Ou a árvore dentro deste restaurante. É muito inspiradora. É uma árvore, feita de plástico, e está aqui dentro. Ela nunca vai ver o sol e nós nunca seremos capazes de comer suas frutas. Deve ser uma situação muito estranha pra uma árvore se encontrar. Tudo é uma inspiração. Às vezes eu apenas sento e penso em silêncio. É quando eu escrevo melhor. Eu estou escrevendo algumas músicas no momento, e eu escrevi agora mesmo no quarto do hotel. Eu estava sentada olhando lá fora para este pequeno pudle e a chuva caindo. Eu comecei a escrever sobre esse puddle e no motivo pelo qual você senta e o assiste. Ah sim, eu penso muito (Aurora exclama. Ela está toda sorridente).

Ano que vem a jovem Aksnes vai fazer um intervalo de todo este trabalho. Quando eu pergunto sobre seus motivos ela diz querer isso e precisa se sentir um pouco entediada. Ela sente muita falta da família. Ela elogia suas duas irmãs mais velhas, Miranda e Viktoria, e seus pais. Eles se comunicam bastante e trabalham juntos em processar tudo que a Aurora encontra.

Um trecho da canção “Home”:

“Endless days of complaints, forcing the light to our veins, keeping in our minds, one day life will be kind”.

Ela me conta que é sobre as pessoas que se perderam em suas vidas e que sobreviveram ao encontrar uma forma de segurança.

Nós humanos criamos tantas coisas que ficamos viciados. Tudo, de drogas a açúcar, coisas que nos destroem. Isso não é estranho? Existem tantas pessoas que ganham disso. Um pensamento muito desagradável. Eu, como vários outros, sou uma pessoa muito sensível. Eu tenho lidado com isso tendo uma boa família, uma casa quieta, natureza, e um talento em escrever música e expressar meus sentimentos através dela. Não é preciso muito para as pessoas fazerem decisões ruins em suas vidas. Eu aplaudo todos aqueles que tentam e ajudam essas pessoas que devem ser todas artísticas, sensíveis e únicas. Mas elas precisaram de outro jeito de lidar com o mundo. Eu acho isso triste. Em Bergen eles expulsaram todos os viciados em drogas de onde eles costumavam ir. Era um lugar que eles podiam se sentir seguros, pelo menos por algumas horas do dia, um tipo de lar. Eu amaria se existissem alternativas melhores. Eu vou definitivamente me engajar na política de abuso de substâncias.

Onde está Aurora Aksnes em dez anos?

Eu vou viver numa casa nas montanhas, totalmente sozinha. Eu espero que eu ainda esteja em tour e que minha música seja o que eu quero que seja: emocional, real e com ênfase na alma da música. Eu espero que eu consiga conquistar algumas coisas no qual eu vou lutar; liberdade de expressão, ajudar viciados em drogas e direito das mulheres. Eu acho que, para não me perder, ou não ficar deprimida nesse bonito porém horrível meio da música, é fundamental ter uma motivação extra para fazer o que eu faço –  tentar ajudar os outros.

Aurora é uma mulher jovem e única, no qual pode ir longe. Ela fala com a segurança de uma pessoa mais velha. Ela impressionou a mim e ao fotógrafo Dimitri com sua aparência infantil, mas com reflexões muito maturas sobre a vida.

Antes de irmos, eu tenho que perguntar: por que você tem super heróis nas suas meias?

Eu apenas amo super heróis e magia. É mágico que nós podemos viver neste planeta que está girando em volta de si mesmo neste universo vasto, com um monte de estrelas em volta dele. Às vezes eu estou completamente sozinha, eu me acho olhando para alguma coisa. Eu me concentro e olho para este objeto, querendo que ele mova. Mas nada se moveu ainda, infelizmente. Eu acredito em elfos. Eu falo comigo mesma ocasionalmente, mas na verdade é para elfos ou outras criaturas mágicas. É extra mágico quando estranhos são gentis uns com os outros.

(Artigo original da edição de Setembro/2016 da revista =Oslo. Tradução em inglês aqui.)

Tradução: Marina Vinhas – Equipe PABR