Em nova entrevista para o site mexicano Revista Kuadro, AURORA falou sobre o Exist For Love Sessions, Amor, Igualdade, Harry Potter e o posicionamento antiquado de J.K. Rowling. Confira:

Entrevista por Mariana Velasco
Tradução por Jéssica Cardoso

Seria demais dizer que o primeiro semestre de 2020 foi extremamente interessante. Tanto que todos nos perguntamos todos os dias se algo mais está por vir para abalar o mundo que conhecemos, e que por si só não é mais o mesmo. A humanidade como um todo foi forçada a mudar e ver as coisas de maneira diferente, a apreciar mais o que temos e a cuidar melhor de nós mesmos e dos outros. Talvez estejamos finalmente adotando a visão analítica e empática que Aurora Aksnes sempre teve, a carismática cantora norueguesa que conquistou o coração de milhões com sua voz melodiosa.

Mas AURORA não é apenas talento musical. Sua grande empatia com questões sociais e ambientais é outra característica: ela está sempre preocupada com o que está acontecendo no mundo e tenta usar sua voz e popularidade para informar as pessoas e incentivá-las a ajudar. É por isso que durante dois álbuns de estúdio ela não encontrou espaço para falar sobre amor; é exatamente o que está acontecendo que a levou a escrever [N.T.: a música na verdade foi escrita em 2017] “Exist For Love”, sua última música que inicia o caminho para um novo álbum.

Em uma entrevista para a Revista Kuadro, a cantora contou sobre esse lançamento e os temas que ocupam seu coração ao compor neste momento. Além disso, ela recentemente organizou um festival online chamado Exist For Love Sessions, que visa revelar talentos subestimados e passar tempo com seus fãs.

Como surgiu a sua ideia de realizar o Exist For Love Sessions?

Quando a pandemia começou, senti que precisávamos de amor e conexão, e quando tudo começou a escurecer e nos isolamos totalmente, eu queria fazer uma música que nos lembrasse o que é o amor. Quando experimentamos o amor de qualquer forma, quando amamos ou somos amados; ou fazemos algo por amor ou lutamos por amor, percebemos por que existimos. O amor nos conecta muito profundamente com a nossa existência.

Também fui inspirada por tudo o que aconteceu, como o assassinato de George Floyd, que nos lembrou de quanta crueldade existe e quão importante é pedir amor todos os dias; no sistema, para a polícia, para nossos líderes. Devemos pedir para sermos respeitados e isso é muito comovente; então eu quis fazer as sessões para falar sobre tudo isso. Eu quis combinar isso com dar aos novos artistas a chance de conseguir novos fãs, porque talvez eles pudessem perder a chance de brilhar com o estado atual do mundo. E como meus seguidores são muito legais, acho que vou fazer isso muitas vezes e continuar trazendo novos artistas.

Como você se sentia no momento em que escreveu Exist For Love?

Eu me sentia muito apaixonada, amo o amor, embora, como você sabe, nunca fui um artista que escreve sobre o amor. Antes, eu achava muito chato, porque havia muitas coisas para escrever antes do amor. Mas quando fui ao mundo inteiro e experimentei como o amor me conecta com meus fãs (a quem chamo de warriors); eu sabia que valia a pena escrever, embora não sentia que devesse lançá-la antes deste ano, agora era a hora certa.

Você sente falta de cantar ao vivo?

Quando penso nisso, sinto muita falta. Sinto falta da energia e do fato de que é aqui que você pode conhecer seus fãs e dizer que os ama, precisa deles e agradecê-los. Sinto falta de mostrar amor cara a cara, mas também adoro estar no estúdio, e por isso não sinto muita falta; ou melhor, não passo meu tempo desejando algo que não pode ser agora. Eu aceito as coisas como elas são e faço o meu melhor, então procuro outras maneiras de me aproximar dos meus fãs.

Que músicas podemos ver no seu próximo álbum? Haverá mais músicas sobre o amor?

Será conectado com o amor, mas também com as pessoas e com a maneira como reagimos ao amor. Fui inspirada por como também reagimos ao ódio e à violência, ao bem e à falta de bem, às trevas e à luz; a tudo o que fizemos que é bom e ruim como humanidade nos últimos 100 anos. Fui inspirado pela religião, o que fizemos em nome da religião, tudo na história que deu a certas pessoas a coragem de acreditar que elas merecem mais do que outras; isso é uma merda, todos nós valemos o mesmo. E a religião, bem, muitas pessoas em nome dela dizem que são melhores; isso é muito interessante para mim, tudo o que fazemos para nos sentirmos superiores e eu queria explorar o que nos leva a isso.

O que você acha que precisamos aprender mais como humanidade agora?

O mais básico: o conhecimento de que até as crianças identificam mais do que nós, é que todos merecemos o mesmo. Merecemos uma chance na vida, a chance de ser amado, ouvido e respeitado. Isso é algo que todos nós precisamos, somos todos iguais e é absurdo que tenhamos que lutar por isso todos os dias.

Agora é quando devemos entender as pessoas que estão sendo oprimidas e que elas não podem lutar sozinhas, todos devemos lutar por todos, ou qual é o objetivo?

Especialmente as pessoas com poder e dinheiro devem lutar e, com a oportunidade de dar importância a algo que não seja a própria vida, devem fazer mais. Eu gostaria que a Noruega fizesse mais, porque é um país muito rico. Quando você tem a oportunidade de fazer algo por alguém, você faz; é por isso que estamos no planeta.


O que você acha do atual estado ambiental do mundo? Você se juntou recentemente ao CHOOOSE, uma plataforma para poluir menos em suas turnês…

Eu sempre me importei com a natureza, ela é uma amiga muito querida; E eu queria fazer algo ainda melhor e mais profissional do que apenas falar e fazer caridade. Então, eu quero limpar o máximo de ar possível quando voar e eles também me aconselham a fazer uma turnê da maneira mais limpa: em quais hotéis e transporte usar, como não usar plástico. Também pedem que todo festival que eu vá seja mais ecológico, então estou ansiosa para sair em turnê novamente e ser ainda mais verde do que antes.

Como você pode manter uma atitude tão boa e ser sempre alegre?

Bem, tenho muita paz interior, aceito a vida como ela é, aceito a mim mesma como sou e as pessoas ao meu redor como elas são. Eu aceito a maioria das coisas e se eu quero chorar eu choro, mas depois eu rio. É como estar em um livro: se me sinto sozinha, falo comigo mesma. Eu leio ou ouço música e penso em toda a beleza que existe como chá quente, flores, piano, adoro as pequenas coisas da manhã, como quando acordo e vejo o ar movendo as árvores.

Não tenho medo de ficar triste ou com raiva, eles fazem parte de ser humano e encontro paz nisso. É mais fácil ser feliz quando você aceita a si e ao mundo e crio minha própria luz na escuridão. Além disso, ninguém pode tirar a música ou os filmes de Harry Potter, embora J.K. Rowling (autora dos livros) tenha se mostrado transfóbica.

Certo, o que você acha dessa situação com J.K. Rowling?

Os livros têm uma vida separada dela e são maiores que ela. Não vou parar de amar Dumbledore e sua sabedoria, embora os pensamentos de Rowling já sejam muito antiquados e ela seja cega sobre essas questões. É muito decepcionante, mas vou separar os livros da autora e também vale a pena separar a música do artista, porque muitas vezes essas coisas são maiores que nós.

Qual seria sua melhor dica de saúde mental para permanecer em paz como você?

Eu diria que não sejam duros consigo mesmos. Não há problema em se odiar às vezes, nem sempre é preciso amar a si mesmo, mas saber o tempo todo que você merece tudo. Tudo bem se você sente que não pode realizar nada ou deseja cancelar seus planos ou mesmo se planeja fazer algo no dia e, no final, percebe que não o fez e se sente indigno.

Temos que ser gentis conosco, porque somos os únicos que podem fazer isso. Beba água, deixe seu quarto bonito, encontre maneiras de aproveitar, mesmo que você não tenha a oportunidade de sair e encontrar a beleza. É muito importante saber o quanto você é valioso e sempre pode encontrar um amigo em um filme ou livro; ou uma música ou uma conversa como a que estou tendo com você agora. Há beleza em toda parte e é importante ter esperança em tudo isso.

Podemos esperar o álbum para este ano?

Talvez!…

 

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